segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A passagem da boiada

Era tarde e o sol descia atrás do horizonte, pras bandas de Álvares Florence. Minha avó, dona Chiquinha, e outras mulheres, catavam lenha na pastagem que margeava um resto de mata virgem da fazenda de Belisário Borges.
Estávamos numa velha estrada desbarrancada, já tomada pelo capinzal. Diziam os antigos que era um pedaço da antiga estrada do Taboado, abandonada depois da abertura da moderna Boiadeira, em 1915, com novo traçado, acompanhando de perto os varjões do São José dos Dourados.
Cosmorama surgiu no final dos anos 30, começo da década de 40, no caminho entre Tanabi e vila Monteiro (antiga Igapira, atual Álvares Florence), e foi palco de passagem de grandes boiadas com destino a Rio Preto e ao Frigorífico Anglo, em Barretos. Eram enormes comitivas que demandavam de Minas e Goiás.
Muitas lendas acompanhavam aquela velha estrada, em especial as façanhas dos peões em seus pousos e folgas. Uma delas, era a morte de Maria Loira, que ganhou fama no sertão como dona de casa de meretrício. Perto de uma pousada de peões sempre havia alguma mulher oferecendo um pouco de carinho para espantar o cansaço e a solidão da jornada.
Um peão apaixonado teria dado um tiro nas costas de Maria Loira quando ela saltava a janela na busca de se salvar da fúria do amor ferido, quiçá rejeitado! O fantasma dela, diziam os mais velhos, costumava vagar em certas noites sem lua nos primórdios da história cosmoramense e, na quaresma um galopar de um cavalo invisível podia ser ouvido nas ruas da cidade em altas horas. Era a atormentada alma do peão em busca do perdão de sua amada assassinada sem nunca lograr sucesso. Sua agonia era galopar na quaresma e a dela era vagar nas noites de breu.
Mas, naquela tarde, o que ouvi e vivi marcou para sempre minhas lembranças infantis. As mulheres preparavam seus feixes de galhos secos, bons de queima, quando uma delas avisou que vinha chegando uma boiada. Todas correram e passaram pela cerca de arame farpado para se proteger.
Não entendi nada, não vi nada, entretanto registrei o susto e o pavor que tomaram conta dos semblantes daquelas senhoras avós quando se escondiam atrás dos arbustos. Era coisa séria, pensei, tentando ver de onde vinha o gado.
Naquele instante senti o chão tremer sob meus pés, como se uma enorme manada de bois estivesse passando a um metro de nós, na estrada velha, em ritmo de estouro. Sem ver e ouvir nada, sentindo apenas o tremor do chão, atirei-me para a proteção da primeira moita.
Cada pessoa ouviu ou sentiu algo diferente. Minha avó contou que ouviu o estalo dos chicotes e os gritos dos ponteiros. Outra mulher ouviu os berrantes ecoando no meio do estouro, outra ouviu o mugido das reses e o latido dos cachorros, enquanto uma quarta disse ter ouvido os sinos da vaca madrinha...
Todavia, todas sentiram o chão tremer e chegaram a tapar o nariz por causa do cheiro da poeira levantada pelos cascos do gado e dos cavalos.
Passado o susto e o pavor, uma delas virou-se para minha avó e disse:
— Essa foi das grandes, né, comadre?
— É, foi. — respondeu dona Chiquinha, apertando seus olhos verdes enquanto ajeitava a rodilha de pano sobre a cabeça para carregar seu feixe de lenha; e fez-se o silêncio.

4 comentários:

Anônimo disse...

LELÉ E SEU BLOG, QUE BOA NOTÍCIA!
ÓTIMAS LEITURAS, COM CERTEZA.

ABR - SOLER

Dudi disse...

Uhhhhaaaaauuuuu...
Que medo me deu dessa sua crônica...
é verdade mesmo...

Maria Júlia Pontes disse...

Gostei da Crônica lelé, uma boa leitura com certeza!
bjos

Blog do Cairbar disse...

Eu nasci e vivi em Tupi Paulista, quando a cidade era um pequeno povoado de "faroeste", com as casas de madeira, iluminação precaríssima e umas três ou quatro ruas. Mas até os sete anos fui criado nos cafezais na região, onde meu pai era empreiteiro. Ainda me lembro de muitos casos semelhantes que eram contados em campos de malha ou de bocha, nas colônias rurais onde morei. Essa sua crônica me fez viajar muito no tempo, trazendo-me lembranças praticamente mortas.